sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A travessia da vida (Lucas 24:13-25)

Publicado no boletim n 2532 em 09 de janeiro de 2011.

Disse muito bem Guimarães Rosa: “O fundamental na vida não é ponto de partida nem a chegada, mas a travessia”. O termo bíblico equivalente para travessia pode ser caminho, tantas vezes encontrado nos evangelhos e tão explícito no movimento do povo de Israel no deserto, nas experiências de exílio etc. Lembram-se dos discípulos no caminho de Emaús após a ressurreição? Pois bem, somos chamados a trilhar/atravessar a dura caminhada/travessia da vida.
Como podemos fazer isso? Qual deve ser a compreensão dessa travessia que Deus nos permite vivenciar? De que forma esse caminho deve ser realizado?
A primeira coisa que registro é que, nessa travessia, não devemos ter a pretensão de chegar a algum lugar. Em outras palavras: não devemos nos iludir achando que já chegamos em algum alvo final. Deus nos possibilitou uma aspiração inata que nos convoca a irmos sempre além do limite conquistado. Os discípulos de Emaús criam que a vida acabava por ali. O mestre não voltou, a esperança acabou. Até que o próprio Cristo se apresenta e lhes faz ver a possibilidade de que a vida continuava e a esperança não estava no passado, mas, sobretudo, no futuro...a vida continuava.
Num segundo momento, a travessia feita em meio às contradições constantes que marcam a existência humana, reserva-nos apenas alguns momentos de felicidade. A alegria integral no decorrer da vida nunca é possível! Não me interpretem mal: Cristo é a nossa verdadeira felicidade e veio para nos conceder vida em abundância. Mas creiam irmãos e irmãs: não estamos isentos das intempéries que marcam nossa caminhada, mesmo sendo cristãos. Corram os olhos e o coração pela Bíblia e verão que os crentes do passado, a despeito da fé que possuíam, sofreram todo tipo de necessidade, sofrimento e dor. A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.
A travessia da vida possibilita-nos também o encontro pessoal e verdadeiro conosco mesmos, com o próximo e com Deus. Mas como é difícil esse encontro primeiramente com a nossa interioridade (subjetividade)? Encontrar-se conosco requer muita coragem, pois é preciso “mudar aquilo que interiormente não aceitamos”, como passível de mudança. Nossa estultícia (crença errada de que somos capazes de suprir nossas necessidades, sejam quais forem), nos impede de vermos nossos erros e, o que é pior transferimos esses erros sempre para o outro. O pecado nunca é meu, eu estou sempre certo! Como se encontrar com o próximo se tantas vezes ele se nos apresenta como o “inferno” indesejado da minha vida, como dizia Sarte (filósofo existencialista). Construímos condomínios, aumentamos nossos muros, sempre no intuito de nos afastarmos do incômodo do próximo. Lembrem que Cristo, na travessia para Emaús, caminha com seus discípulos até a ponto de partir o pão da comunhão, momento em que seus olhos são abertos. Isso deve ser significativo para nós, não é mesmo? Encontro com Deus que independe do que somos e fazemos. Ele está sempre a nossa procura chamando-nos pelo nome e esperando a nossa participação efetiva na construção do Reino de Deus.
É isso aí, irmãos e irmãs, muita esperança para todos nós na dura e difícil travessia da vida em 2011. Deus nos abençoe!

Rev. Saulo Marcos de Almeida

Um comentário:

Lucivania Negreiros disse...

Belíssimo texto! Muito bom ter a oportunidade de iniciar um novo dia com uma reflexão tão linda!